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Lia Assumpção

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Calculadoras, computadores e telefones celulares

ECOA

27/10/2019 04h00

Essa coluna é quase uma continuação da anterior. Tipo, capítulo dois da obsolescência programada. (É grande esse nome, né?) Vou tentar fazer as colunas independentes, mas, qualquer coisa, acessa lá o texto da semana passada que tudo pode ser complementado.

Bom, então a gente tava lá na década de 1920, com as lâmpadas, depois ali nos 1940 com os carros até chegarmos nas calculadoras, que são os primeiros integrantes do que conhecemos hoje como lixo eletrônico. Sim, porque as calculadoras foram uns mini computadores, antes dos computadores.

Quero dizer que o sistema delas, na verdade os microchips que estavam dentro delas, assim como os que estavam dentro dos videogames e rádios, começaram a modernizar os equipamentos ali pela década de 1970, ajudaram a desenvolver os computadores e, de uma certa maneira, tudo que veio depois deles…

A coisa é que, ali no final década de 1970, ainda com a Guerra Fria rolando, logo depois de União Soviética e Estados Unidos chegarem à lua, os dois países estavam ali naquela disputa toda e investindo muito em pesquisa tecnológica. E o fato é que rolava muita espionagem. E, um dia, um moço importante do governo americano entendeu que uma parte dos equipamentos americanos super tecnológicos desse período acabava chegando na União Soviética. Com eles lá, era como se os soviéticos dessem uma roubada na disputa porque desmontavam os produtos americanos, viam como as coisas eram feitas, juntavam com a pesquisa feita lá e andavam umas casinhas a mais, passando os americanos.

E, para evitar isso, esse moço teve a ideia de "quebrar" as coisas. Na verdade, ele sugeriu que rolasse uma modificada nos sistemas que faria com que, depois de um tempo, alguma parte dele parasse de funcionar. Isso porque, assim, os soviéticos não teriam tempo de descobrir certinho o caminho da mina de como eles eram feitos nos EUA. E isso é a sementinha da obsolescência tecnológica.

Lembrando que a obsolescência tecnológica, embora tenha esse nome grande e cheio de consoantes, tem um bom exemplo contemporâneo de equipamento que sofre com isso, o telefone celular. Na verdade, é a gente que sofre, não o celular… É isso que já aconteceu com você, ou com alguém que você conhece, que o "sistema" não atualiza ou quando seu telefone fica lento.

Na verdade, no telefone a gente pode ver todos esses "atrativos" para troca, que caracterizam a obsolescência programada em todas as suas espécies: uma melhora na câmera, uma velocidade maior, um modelo mais novo de cores mais "novas" também, o vidro que quebrou de novo e que não compensa consertar… Tudo te estimula a trocar, e não a consertar. Te soa familiar?

Pois é, isso tudo começou lá com as calculadoras. Na verdade, começou lá com as lâmpadas. Vale fazer um parêntesis longo sobre a calculadora, porque, antes dela, havia uma régua de cálculos que fazia contas de maneira rápida, porém analógica. Mas a coisa é que essa régua era mais difícil de usar, não era como a calculadora que todo mundo pega e usa. Tinha gente especializada em usá-las para cálculos em arquitetura e engenharia, por exemplo. E o que aconteceu quando os microchips se popularizaram e muitas empresas que fabricavam essa régua passaram a produzir e vender calculadoras ali no começo da década de 1970 é que, de quebra, quem trabalhava com elas também acabou ficando sem emprego e, de uma certa maneira, obsoleto. Então, nesse caso, produtos e profissionais ficaram obsoletos e foram substituídos.

O que me mobiliza nessa coisa toda da obsolescência programada é que ela instituiu uma maneira de consumir e lidar com bens de consumo, que acaba modificando a maneira como agimos e nos relacionamos como sociedade. Aquele designer* da década de 1960 que falei no outro post fala que, se achamos que tudo é descartável, corremos o risco de acreditar que as relações pessoais são descartáveis, ou que povos e territórios inteiros podem ser descartáveis. Ele falava isso lá na década de 1960.

Na minha pesquisa eu descobri que as coisas não precisam mais ser feitas para quebrar para serem trocadas porque a obsolescência programada já é algo muito naturalizado na nossa vida hoje. Naturalizado quer dizer que a gente nem pensa mais sobre isso, é quase uma coisa meio "é assim, porque sempre foi assim". E descobrir que não foi sempre assim, como eu disse no outro post, me faz imaginar que pode ser de muitas outras maneiras.

Não tô aqui pra ser saudosista e dizer que antigamente era melhor, que tecnologia nem sempre é bom… Nada disso. Acho que a tecnologia tem o poder de ajudar a gente a fazer esse mundo ser melhor, dependendo de como é usada. Talvez eu esteja aqui para desnaturalizar a obsolescência programada… Isso é bem prático na maneira como produzimos e consumimos coisas e, por outro lado, pode ser amplo, se pensarmos em como isso altera a maneira como nos relacionamos com as coisas e com as pessoas.

* Victor Papanek o nome dele, para um segundo designer interessado.

Sobre a Autora

Lia Assumpção é designer, mestre em Arquitetura e Design pela FAU-USP, curiosa dos assuntos relacionados a consumo e sustentabilidade.

Sobre o Blog

Este blog é sobre consumo consciente porque nem tudo que é reciclável é reciclado. É escrito por uma designer, inquieta com a maneira como consumimos e descartamos coisas e crédula de que só uma iniciativa compartilhada entre indústria, poder público e consumidores conscientes pode alterar a lógica consumo-descarte vigente. A ideia aqui é falar sobre atitudes cotidianas, tentando um meio a meio entre reflexões e soluções práticas.

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