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Lia Assumpção

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Lâmpadas, carros e trocas

ECOA

20/10/2019 08h00

Eu vim parar aqui por causa da vitrola e todos nós estamos aqui trocando coisas que quebram por causa de carros e lâmpadas. Isso porque muito tempo atrás (era uma vez…), lá na década de 1920, o pessoal que comercializava lâmpadas achou que elas duravam muito e que isso não era muito bom para a indústria — talvez mais para o dono da indústria —, porque a pessoa comprava a lâmpada e ela durava a vida toda da pessoa. 

Quando a lâmpada foi inventada (faz tempo, hein? 1895), ela tinha uma vida útil estimada de cinco mil horas; depois de uns trinta anos, quando o pessoal que produzia lâmpadas decidiu que ela durava demais e isso não era bom, eles estudaram um jeito de ela durar metade desse tempo. Até que em 1940, esse mesmo pessoal achou que mil horas era bom, fechou mil horas e mil horas era o que ela devia durar, porque talvez eles achassem que era um tempo bom de quebrar, comprar, quebrar, comprar. Dava tempo da pessoa comprar muitas lâmpadas na vida. E esse foi o primeiro caso do que chamaram de obsolescência artificial (que é um tipo de obsolescência programada), porque essa turma que produzia a lâmpada gastou um tempão pesquisando como fazer para o tempo de vida útil dela ser reduzido. Eles acharam um jeito de ela dar defeito fazendo com que a pessoa (no caso, consumidores) tenham que comprar uma nova. 

Vale dizer que obsoleto é algo velho e que não serve mais. Obsolescência programada, então, como o próprio nome diz, programa a hora em que os produtos ficam velhos e não servem mais, e isso pode ser feito de várias maneiras: artificialmente, como no caso da lâmpada aqui de cima, e de outras duas maneiras, que eu conto em seguida.

Depois da lâmpada veio o carro. Mas a coisa do carro tem outro nome: obsolescência psicológica. Nesse caso, o pessoal que produzia carros achou que, se eles fizessem uma publicidade enorme, dizendo que você não sabe de nada se não tiver esse último modelo de carro, com essa cor linda que a gente inventou, com esse rabo de peixe que não serve muito pra nada mas é lindo… se você não tem esse carro, meu amigo, você não vale nada. Eles chamaram isso de modelo anual de carros e ele veio da moda, das coleções outono-inverno, primavera-verão… E deu certo. Porque junto com isso, eles também inventaram um jeito de produzir mais carros, porque o consumo aumentava, a produção melhorava, novos materiais eram inventados e então os carros ficaram mais baratos e mais pessoas puderam comprá-los. E aí a indústria dava dois motivos para os consumidores trocarem as coisas: a primeira é que eles te faziam enjoar daquela cor ou daquele rabo de peixe que no ano passado era a coisa mais linda do mundo mas que, neste ano, iiiiiii, não sei, meio cafona…; a segunda é que todas essas coisas que eram lançamentos, como os rabos de peixe ou faróis diferentes, davam defeito… e aí não tinha assistência técnica… e aí? Ah! Aproveita e troca! A gente parcela!

Vale dizer que isso tudo aconteceu ali na década de 1920 e as empresas que dominavam o mercado eram Ford e GM. Mas, um pouquinho antes do pessoal decidir que a gente tinha que trocar tudo sempre, a Ford era a campeã de mercado e o seu slogan era algo como "o carro pra vida toda". O carro era super simples e vinha com um manual e uma caixa de ferramentas para você consertar ele sozinho, se preciso fosse. Diferente, né? Pois é.

Vale também dizer que nesse tempo, ali perto de 1929, a economia americana estava em crise e essa coisa de comprar loucamente era vendida um pouco como um nacionalismo, como algo que você faz pelo seu país, no papel de indústria e de consumidor, para fazer a economia girar e sair do buraco. E o pessoal comprou essa ideia de todos os lados. Coisas descartáveis também começam a aparecer nessa mesma época e o hábito de usar e descartar ganhou a força que o pessoal do carro e o pessoal da lâmpada precisava. Dá pra imaginar que houve um tempo em que não havia o descartável? Eu lembro de achar muito chato o dia de ir no mercado levar as garrafas de refrigerante e de cerveja, porque os "cascos" tinham que ser retornados para você comprar mais cerveja e refrigerante. Mas nesse tempo já tinha guardanapo, copo e um monte de coisas descartáveis que, tudo bem que eu sou do tempo da vitrola, mas não do tempo em que a obsolescência programada foi implementada.

Depois dessas duas, vem a que a gente é mais familiarizado: obsolescência tecnológica. Essa é a do celular, bingo! Ela começa a estar entre nós ali pela década de 1980, quando essas outras duas anteriores já eram bem comuns. Mas essa merece uma coluna só pra ela, reserva. 

Então pra fechar, estou contando tudo isso porque a maneira como nos relacionamos com bens de consumo hoje, tem relação direta com a obsolescência programada e com a descartabilidade das coisas. E já que estamos novamente em um momento de mudanças, o fato de saber que isso tudo não foi sempre assim, me dá coragem para pensar em mundos que não serão sempre assim.

Sobre a Autora

Lia Assumpção é designer, mestre em Arquitetura e Design pela FAU-USP, curiosa dos assuntos relacionados a consumo e sustentabilidade.

Sobre o Blog

Este blog é sobre consumo consciente porque nem tudo que é reciclável é reciclado. É escrito por uma designer, inquieta com a maneira como consumimos e descartamos coisas e crédula de que só uma iniciativa compartilhada entre indústria, poder público e consumidores conscientes pode alterar a lógica consumo-descarte vigente. A ideia aqui é falar sobre atitudes cotidianas, tentando um meio a meio entre reflexões e soluções práticas.

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