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Um eletrodoméstico para chamar de seu

ECOA

08/03/2020 04h00

Costumo dizer que todo mundo conhece obsolescência programada, ainda que não saiba seu "nome". A prática de ser mais fácil (ou mais barato) comprar algo novo do que tentar consertá-lo é totalmente naturalizada na nossa vida contemporânea. E esse é o principal "sintoma" da obsolescência programada. 

Na prática, você pode pensar em algum produto que acabou de comprar porque não conseguiu consertar o que tinha antes. E desde que comecei a estudar e falar bastante desse assunto, coleciono histórias de produtos. 

Fazia tempo que não me acontecia, mas semana passada um amigo indignado veio me contar que a sua chaleira elétrica, companheira de anos, tinha tido o botão quebrado e parado de funcionar. E que ele tinha telefonado para diversas assistências técnicas atrás do modelo dela para tentar comprar um novo botão e trocá-lo (uma vez que as resistências dessas cafeteiras costumam ser resistentes, para fazer um jogo de palavras). Em vão. Sem botão pra ele. Sem jeito de utilizar a chaleira sem se queimar. E, mesmo indignado, ele teve que se render, comprar uma novinha e se desfazer da antiga.

Uma outra conhecida declarou seu ódio por mim uma vez, porque tinha consertado seu forninho elétrico umas 4 vezes. Ele seguia quebrando, mas ela não conseguia desistir de consertá-lo por conta das nossas conversas. Libertei ela da prisão e não tive mais notícias. Esperemos que tenha um novo forninho em casa e não me odeie mais.

Tem gente também que ri, que fala, claro! Secador de cabelo! Uma amiga de cabelos longos, com filhas de cabelos longos, me conta que secadores de cabelo duram pouquíssimo na sua casa graças ao uso diário.

Tem também gente que identifica formas mais malévolas: o moço compra fast food para os seus filhos por conta dos brinquedinhos (quem nunca?) e quer que eles durem… Mas a bateria acaba e ele não consegue trocar porque a chave que abre o compartimento de baterias é triangular, e ele não tem na sua caixa de ferramentas, porque é específica para aquele produto. E, se você tenta com sua chave allen ou phillips, ela espana o buraco do parafuso e adeus chance de abrir aquela portinha para trocar suas baterias.

Isso sem falar nos celulares que quebram a tela ou ficam desatualizados, nos computadores ou tablets que eventualmente trocam os carregadores e saídas, e você tem que renovar toda uma gama de cabinhos e coisinhas que viram lixo em seguida. 

Eu também tenho um equipamento "modelo" de obsolescência programada para chamar de meu: uma impressora. Depois da vitrola, que levou todos os vinis de casa e me chocou (conto isso na coluna), veio a impressora. Sou designer, por isso um dia cansei de pagar a gráfica rápida e decidi que ia investir em uma impressora muito boa, para não gastar mais em pequenas impressões. Pesquisei, parcelei, comprei. Pensei que nós duas (eu e a impressora) ficaríamos juntas pra sempre. Só que não foi assim. Um dia, uns 3 anos depois de tê-la comprado, ela quebrou. Descobri que as assistências técnicas oficiais da marca da minha impressora ficavam longe da região central de São Paulo. Não me conformei e liguei lá para perguntar: "Só tem assistência técnica oficial longe do centro mesmo? Não tem nenhuma mais perto da região central da cidade?". A atendente me respondeu que era isso mesmo, que se eu quisesse muito consertar teria que ir longe. 

Repeti a pergunta algumas vezes, na esperança de ela lembrar de uma unidade. Mas uma hora ela disse: "A empresa não investe em assistência técnica". Oi? Ah, me indignei. Aquela impressora cara estava quebrada, as impressões saíam ruins, eu queria consertar na assistência técnica oficial, mas era longe e difícil — e certamente seria caro. Ainda tentei algo meio assim: "Então, a ideia é mesmo que seja difícil consertar para eu comprar uma nova?" Era uma pergunta retórica. Ela me perguntou se podia ajudar em mais algo, eu disse que não e tivemos todas um bom dia. 

Moral da história: comprei uma impressora nova, porque o preço de consertar a que achei que duraria a vida toda era quase o mesmo de comprar outra. Sua substituta custou baratinho e já não viveu feliz para sempre comigo também. Mas, desde então, todas essas histórias e os conceitos por trás desse fenômeno me interessam.

Moral da história 2: a chaleira tinha um componente que é descontinuado nas mudanças de modelo. O secador de cabelo é feito com materiais mais baratos (e por isso custa mais barato), porém tem uma vida útil estimada mais baixa. Os brinquedos, muitas vezes, são relacionados a filmes do momento e serão descartados, mais pelas crianças, que já têm já uma nova paixão, do que pelas pessoas que gostariam que ele durasse e não conseguem trocar a bateria.

Todas essas histórias servem para ilustrar como essa prática é frequente no nosso cotidiano e está naturalizada nas nossas vidas. Se prestarmos atenção nelas e soubermos seu nome, talvez ela comece a se desnaturalizar. E esse é um dos passos para tentarmos encontrar meios de combatê-la da maneira que for possível, nas nossas escolhas de consumo; porque esse mundo já tá muito cheio de lixo. E se não fizermos a nossa parte, pensando uns nos outros, não sei quem fará. 

Sobre a Autora

Lia Assumpção é designer, mestre em Arquitetura e Design pela FAU-USP, curiosa dos assuntos relacionados a consumo e sustentabilidade.

Sobre o Blog

Este blog é sobre consumo consciente porque nem tudo que é reciclável é reciclado. É escrito por uma designer, inquieta com a maneira como consumimos e descartamos coisas e crédula de que só uma iniciativa compartilhada entre indústria, poder público e consumidores conscientes pode alterar a lógica consumo-descarte vigente. A ideia aqui é falar sobre atitudes cotidianas, tentando um meio a meio entre reflexões e soluções práticas.

Lia Assumpção