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Batatas para comer ou embalar?

Lia Assumpção

01/03/2020 04h00

Sempre amei a ideia de biodegradável. Na faculdade, era fascinada com os primeiros plásticos (deveria dizer polímeros?) de batata, mandioca, beterraba… Achava incrível a ideia de você usar uma colher amarelinha linda e imaginar que ela viraria terra de novo. Pensava: "Por que o mundo não é todo assim? Por que todos os plásticos do mundo não são assim?"  

Outro dia, de novo, fiquei muito animada com o copo biodegradável de café que tomei aqui pertinho de onde trabalho. Comentei: "Que legal que o copo é biodegradável". O desconhecido, que estava sentado ao meu lado, disse: "Você sabe, né? Na verdade, o biodegradável é só menos pior do que o plástico normal. Ele deixa de ser plástico em menos tempo do que o plástico normal, mas ainda assim, demora bastante…" 

Outro dia também comprei uma cápsula de café biodegradável porque ainda tento achar uma solução menos maléfica para o meu amor por café expresso. Coloquei a cápsula da composteira, quase que desafiando o desconhecido do parágrafo anterior, sem que ele soubesse… Mas eis que o café não era o melhor de todos e a cápsula, tirando a sujeira do composto todo do minhocário, ainda continua lá sendo cápsula, sem sinais de que vai deixar de sê-lo… Ela e o caroço da manga. 

Graças às duas experiências descobri que meu mundo ideal na faculdade, na verdade, era com postável, não biodegradável (palavras!). Todos os dois vão se decompor e deixar de existir um dia, porém esses tempos são realmente bem diferentes. E os benefícios para a terra onde serão descartados, também. Quando dizemos que algo vai se decompor, estamos dizendo que ele vai virar pedaços cada vez menores, até desaparecer por completo na natureza. 

Já um produto compostável é feito a partir de materiais mais naturais que vão contribuir com a riqueza da terra, já que não tem nada tóxico nele; eles tem um tempo de decomposição pequeno. Algo biodegradável, é algo que também vai se decompor, porém não é necessariamente bom para a terra porque não é feito somente de materiais naturais e o tempo de decomposição também não é necessariamente pequeno. Um exemplo: as sacolinhas de plástico tradicionais que pegamos no mercado (aquelas que foram proibidas mas seguem disponíveis por aí) demoram 100 anos para se decompor; as biodegradáveis, implementadas na época dessa proibição, dizem que se decompõe em apenas 2 anos. 

Então me apeguei no compostável. Mas, eis que em uma palestra que assisti, um moço fez essa pergunta: num país que tem fome, vale mais a gente usar a terra pra plantar tubérculos que servirão ao consumo ou que alimentarão pessoas? Sempre só pensei no plástico ali, se desfazendo em berço esplêndido na própria terra que ele nasceu; mas nunca tinha pensado nessa cena das plantações e plantações de tubérculos que virarão aquela embalagem de brinquedo impossível de abrir. Ou no copinho de café que me fez conhecer o moço das verdades antes desconhecidas a respeito do biodegradável.

Me deu um pouco uma sensação de desesperança, de não tem muito jeito… E, procurando informações sobre essas duas palavras, encontrei algo falando de talheres descartáveis inventados no México, que me tirou um pouco desse estado. Os talheres são feitos de caroço de abacate e se decompõe em 15 dias, dizem. O México é o maior produtor de abacate, não falta caroço por lá. Não tira a comida de ninguém, usa um material que seria descartado, nova esperança no ar…

Moral da história, entre ânimos e desânimos: se eu achava lá atrás que o biodegradável seria a solução de todos os nossos problemas, não acho mais. Mas na verdade, o que eu não acho mais é que haja uma única solução para todos os nossos problemas porque eles são muitos, então precisamos de muitas soluções. E as palavras biodegradável e compostável figuram sim entre essas soluções. 

Sobre a Autora

Lia Assumpção é designer, mestre em Arquitetura e Design pela FAU-USP, curiosa dos assuntos relacionados a consumo e sustentabilidade.

Sobre o Blog

Este blog é sobre consumo consciente porque nem tudo que é reciclável é reciclado. É escrito por uma designer, inquieta com a maneira como consumimos e descartamos coisas e crédula de que só uma iniciativa compartilhada entre indústria, poder público e consumidores conscientes pode alterar a lógica consumo-descarte vigente. A ideia aqui é falar sobre atitudes cotidianas, tentando um meio a meio entre reflexões e soluções práticas.

Lia Assumpção