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Lixo zero?

ECOA

19/01/2020 04h00

Já ouviu falar em "Lixo Zero"? É uma inciativa, um movimento, uma filosofia, uma maneira de levar a vida, talvez, que busca reduzir a geração de lixo a zero. É também o nome de uma organização aqui do Brasil (Instituto Lixo Zero) e de outros países (Zero Waste) que seguem essa ideia (por isso L e Z são escritos em letra maiúscula) e promovem encontros, cursos, certificações e mais uma porção de coisas nesse sentido.

Oficialmente: "Uma meta ética, econômica, eficiente e visionária para guiar as pessoas a mudar seus modos de vida e práticas de forma a incentivar os ciclos naturais sustentáveis, onde todos os materiais são projetados para permitir sua recuperação e uso pós-consumo" (ZWIA – Zero Waste International Alliance).

Esse nome, confesso, me afastou da ideia umas tantas vezes. Porque geramos muito lixo, e pensar em gerar zero sempre me pareceu meio difícil – para não dizer impossível. Um pouco que nem dieta, quando a pessoa te diz que você não vai mais poder comer doce nenhum dali para frente, sabe? Ou não vai poder comer mais pão nenhum. Ou não vai poder beber mais nada. Lido melhor com "podemos tentar diminuir?", ou então com "será que não dá pra evitar?", ou ainda com "tudo bem, em vez de três pedaços, que tal se você comesse um só?".

Eis que a ideia do lixo zero é essa mesma. Se você gera 10 de lixo, que tal pensar em reduzir? E, nossa, se você gerava 10 e agora gera 6, puxa, 6 é bem mais perto do que 0 e isso é bom, minha gente! Então a ideia do lixo zero não é exatamente zero (pelo menos não imediatamente), mas, digamos, o mais próximo de zero possível. Eu animo. Estou aqui na minha caminhada, diminuindo e evitando lixos desnecessários, rumo ao zero.

Vale aqui uma distinção de nomes: lixo e resíduos/rejeitos não são a mesma coisa, ok? Lixo é aquilo que não tem mais serventia mesmo, enquanto resíduo/rejeito, é algo que não te serve mais, mas que pode voltar a ser matéria prima ou que pode ter utilidade para mais alguém. A embalagem do presente que você ganhou no natal é resíduo se for encaminhada para reciclagem; mas a mesma embalagem é lixo, se juntar com o lixo orgânico da sua casa e for parar no lixão. O mesmo vale para o lixo orgânico: ele é resíduo se for para uma composteira e virar adubo, mas é lixo se juntar com a garrafa de suco que você jogou no lixo comum e que vai parar no lixão. Então, digamos, uma das diretrizes do pensamento lixo zero é a de que não ocorra a geração do lixo, no sentido de que não se misture resíduos recicláveis, orgânicos e rejeitos.

Oficialmente (mais uma vez): "Máximo aproveitamento e correto encaminhamento dos resíduos recicláveis e orgânicos e a redução – ou mesmo o fim – do encaminhamento destes materiais para os aterros sanitários e/ou para a incineração".

No site do Instituto Lixo Zero aqui do Brasil, tem também os R's que repetimos tantas vezes, só que lá eles são 4. Os três que ouvimos sempre falar (reutilizar, reduzir e reciclar), e o repensar (que é o primeiro da lista deles, vale dizer) que propõe "acabar com a ideia que os resíduos são sujos. Não descartar no lixo comum ou misturar materiais que poderiam ser reciclados".

Acho que é uma mudança gradual, porque somos vários agentes geradores de lixo na sociedade e o sistema como um todo deve se adaptar às novas condições do planeta. No site também tem uma pergunta: "De quem são as responsabilidades?" E tem também a resposta: "indústrias, que produzem e desenham produtos; comércio, que vende produtos; consumidor, na extremidade final do sistema (consumo, uso e o descarte); governo, que intermedia/harmoniza a responsabilidade da comunidade com a da indústria".

Uma das primeiras coisas necessárias para entrarmos nessa filosofia é pensar sobre o nosso lixo. Na verdade, pensar mais precisamente que ele não some depois que colocamos do lado de fora da nossa casa. Ele não deixa de existir e toma caminhos variados. Claro que ele pode ter um final feliz e ser reciclado. Mas o que acontece na maioria das vezes é que ele vai para um aterro onde recicláveis e não recicláveis, tóxicos e não tóxicos, ficam ali, numa montanha de lixo que não some e que vai crescendo.

Acabei de passar uma semana com amigos num sítio, onde o lixeiro não passa e fomos nós que levamos o lixo até um ponto de coleta. Na cidadezinha onde estávamos não tem coleta seletiva, fica o lixo todo ali junto, bem o oposto do que acabei de escrever acima. Resíduos e rejeitos que poderiam voltar à vida, ali, juntinhos com orgânicos, com o destino da montanha de lixo. Jogamos alguns sacos de lixo que geramos nesses dias na caçamba reservada para ele. Do lado dela, tinham duas televisões de tubo quebradas e uma porção de saquinhos de supermercado com pequenos lixos dentro, além de um colchão. Eu, que separo o lixo na minha casa, onde tem coleta, separei lá também. Mas não consegui trazer de volta porque não tinha lugar, então, acabei jogando os sacos todos juntos ali na caçamba. E não gostei de imaginar que estava ali contribuindo para isso que sei que é tão nocivo. Voltei, articulando um plano de levar os recicláveis na próxima volta de lá; ou de reduzir a quantidade. Voltei também um pouco pessimista, pensando que a responsabilidade disso não é só minha.

Sobre a Autora

Lia Assumpção é designer, mestre em Arquitetura e Design pela FAU-USP, curiosa dos assuntos relacionados a consumo e sustentabilidade.

Sobre o Blog

Este blog é sobre consumo consciente porque nem tudo que é reciclável é reciclado. É escrito por uma designer, inquieta com a maneira como consumimos e descartamos coisas e crédula de que só uma iniciativa compartilhada entre indústria, poder público e consumidores conscientes pode alterar a lógica consumo-descarte vigente. A ideia aqui é falar sobre atitudes cotidianas, tentando um meio a meio entre reflexões e soluções práticas.

Lia Assumpção