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A linha e o círculo

ECOA

12/01/2020 04h00

Acho a comparação das duas imagens (círculo e linha) a melhor para falar de economia circular, que é uma saída para sairmos do "compra-usa-descarta-compra-usa-descarta-pra-sempre que vivemos".

Se pensarmos na imagem, o círculo não tem muito começo e nem fim, a coisa fica rodando ali num contínuo. Já a linha pode ser infinita, mas não volta nunca para o começo.

Quando falamos de economia circular estamos falando de consumo, que é o que move a economia. Quando pensamos num consumo dentro dessa lógica circular, voltar para o começo significa que não existe descarte.

Existe um livro importante que fala sobre esse tema, cujo título é "Do berço ao berço". De acordo com os autores, o oposto disso seria "Do berço à sepultura", que é como vivemos hoje. A ideia da economia circular é que não haja descarte, que tudo de alguma maneira volte sempre para o início do seu ciclo de vida.

Na sua versão original, em inglês, o livro é feito não de papel, mas de um material plástico que pode ser reciclado pra sempre, sem perder qualidade. Isso quer dizer que ele pode ser papel para sempre, diferente de outros plásticos que, quando reciclados, perdem qualidade, tendo mais um ciclo de vida – mas morrendo logo ali, depois da segunda vida, talvez. Esse material também é impermeável, o que lhe atribui também uma característica de durabilidade. Ou seja, é um livro falando de economia circular, empregando-a no objeto em que essa ideia é divulgada. Ele pode durar um tempão se você quiser. Caso não, ele pode voltar a ser outro livro. Essa é a ideia.

A economia circular se relaciona com outra linha de pensamento que se chama "biomimética", que se inspira na natureza para desenvolver produtos e resolver problemas. E na natureza não existe descarte.

Na prática, podemos falar de embalagens de leite, por exemplo. Na lógica que vivemos agora, do "compra-usa-descarta", a fábrica faz a embalagem, enche de leite, o produto chega a sua casa, você bebe o leite e descarta a embalagem no lixo.

Na lógica da economia circular, e num ciclo ideal, a fábrica pegaria a embalagem de volta de modo que esta possa receber novamente o conteúdo que você irá consumir. Ou ainda, essa fábrica poderia pensar em uma embalagem retornável, de um material que pudesse ser esterilizado e reutilizado novamente, por exemplo. Nesse caso, ela poderia cobrar valores diferentes pela embalagem e pelo seu conteúdo, e no caso de você devolver a embalagem, pagaria somente o valor do leite que bebeu.

Há uma empresa chamada "Loop" que está implementando nas cidades de Nova Iorque, Londres e Paris um sistema de embalagens dentro dessa lógica da economia circular. Olha que bonito: é como se você comprasse a embalagem e ela fosse sua para sempre. Então você paga pela embalagem um custo maior e depois vai pagando o que eles enchem lá de produto para você, que pode ser leite, mas pode ser detergente, suco ou xampu. Eles ainda estão na caça das empresas que se disponham a mudar sua lógica de fabricação, porque mudanças normalmente trazem custos.

Mas já imaginou que lindo seria se um monte de gente aderisse e nós não tivéssemos mais um monte de embalagens virando lixo por aí?

Sobre a Autora

Lia Assumpção é designer, mestre em Arquitetura e Design pela FAU-USP, curiosa dos assuntos relacionados a consumo e sustentabilidade.

Sobre o Blog

Este blog é sobre consumo consciente porque nem tudo que é reciclável é reciclado. É escrito por uma designer, inquieta com a maneira como consumimos e descartamos coisas e crédula de que só uma iniciativa compartilhada entre indústria, poder público e consumidores conscientes pode alterar a lógica consumo-descarte vigente. A ideia aqui é falar sobre atitudes cotidianas, tentando um meio a meio entre reflexões e soluções práticas.

Lia Assumpção