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Nem tudo que é reciclável é de fato reciclado

ECOA

15/12/2019 04h00

Foi a indústria do plástico que nos convenceu que se é reciclável é bom. Isso foi ali no começo da década de 1970, quando começou-se a tocar na pauta de meio ambiente e a palavra sustentabilidade não era assim tão familiar para nós como é hoje. Com essa ideia, nossa atenção foi para a reciclagem e não para o consumo; acabamos convencidos de que plásticos de uso único são ok, porque, afinal, eles serão reciclados (plástico de uso único é um outro nome para descartável; é aquele copo de plástico que você usa para beber um copo d'água para em seguida jogar no lixo, sabe?). Só que não é bem assim.

Para algo ser efetivamente reciclado, muitas coisas precisam acontecer. A primeira, determinante, é que você separe o lixo na sua casa ou na sua empresa, ou na sua indústria. A segunda é que esse material que você separou, chegue numa empresa que recicle ou numa distribuidora/cooperativa que conheça alguém que recicle esse material. Isso pode acontecer se houver coleta seletiva na região que você mora ou se você se dispuser a levar o seu lixo reciclável em algum eco-ponto ou ainda contatar algum catador de lixo que venha pegar esse material na sua casa. A terceira, é que exista uma indústria que tenha maquinário para reciclar esse material. E eis que nem sempre conseguimos completar todos esses passos.

Uma coisa importante a ser levada em consideração é que tem um monte de tipos de material e cada um é reciclado de um jeito. O plástico, por exemplo, chama sempre plástico mas pode ser composto de diversas maneiras, com muitas variedades de polímeros. Sabe aquele simbolozinho do triângulo feito de setinhas, que faz a gente achar que o material é do bem porque ele é reciclável ou reciclado? Então, ele também conta o tipo de material. Os números de 1 a 7 são tipos de plástico, e segundo o episódio sobre plásticos da série "Desserviço ao consumidor" que assisti recentemente, parece que só os números 1, 2 e 5 é que tem um parque industrial para reciclagem, os demais, vão para o lixão mesmo, tá?

Nessa série, também acessei outro número que me chocou: estima-se que de todo o plástico produzido no mundo até hoje, somente 9% foi efetivamente reciclado. O resto tá por aí, em lixões, no mar, na terra…

Coincidentemente, no dia seguinte que assisti a essa série, recebi o treinamento para a nova coleta de lixo adotada no meu prédio. E ficou quase que ilustrado essa coisa dos tipos de plástico, porque entre os materiais que ficam de fora da coleta deles, está um plástico mais duro como os que normalmente embalam uva ou tomate, sabe? É um plástico transparente, só que mais durinho, quase quebradiço. Pois é, esse material é reciclado, porém não é reciclável, assim me disse a moça do treinamento. Vale dizer, que a separação que essa empresa propõe, tem a ver com o final da cadeia, isto é, todo o material que eles coletam, com certeza chegará até uma reciclagem. Então na lista deles, entra só os materiais que tem lá um fim certo.

Mas voltando ao começo: quando a indústria do plástico nos convenceu que se é reciclável é bom, eles nos tranquilizaram quanto ao seu consumo e, ao mesmo tempo, nos passaram a responsabilidade de reciclar esse material. Fica com os consumidores a responsabilidade que deveria ser de quem colocou esse plástico no mundo… Tudo bem, a vida não é assim, mas vale um questionamento para a tríade consumidor, poder público e indústria, pensando um pouco em quem é e quem não é responsável na cadeia… E eu não vejo muitas indústrias preocupadas com o processo como um todo, ou seja, disponibilizando serviços de coleta de recicláveis, investindo em pesquisa para materiais menos poluentes ou, ainda, em novas formas de consumir, que possam diminuir o número de embalagens ou qualquer produto de uso único. Pode ser que eu esteja olhando no lugar errado, mas enfim…

Fazemos a nossa parte como consumidores, mas não podemos perder de vista as outras partes envolvidas no processo. Podemos pensar em cada coisinha que compramos e nos responsabilizar por ela; evitar comprar algo que sabemos que vai virar lixo logo ali. Então fica com isso quando olhar os triângulos bonitinhos que despertam um bom sentimento na gente: nem tudo que é reciclável, é de fato reciclado, tá? E qual a moral da história? Melhor não depositar todas as suas esperanças na reciclagem. Nos três R's, prefira o Reduza e o Reutilize, porque o Recicle, depende de muitas coisas que muitas vezes não acontecem. Infelizmente.

Sobre a Autora

Lia Assumpção é designer, mestre em Arquitetura e Design pela FAU-USP, curiosa dos assuntos relacionados a consumo e sustentabilidade.

Sobre o Blog

Este blog é sobre consumo consciente porque nem tudo que é reciclável é reciclado. É escrito por uma designer, inquieta com a maneira como consumimos e descartamos coisas e crédula de que só uma iniciativa compartilhada entre indústria, poder público e consumidores conscientes pode alterar a lógica consumo-descarte vigente. A ideia aqui é falar sobre atitudes cotidianas, tentando um meio a meio entre reflexões e soluções práticas.

Lia Assumpção