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Um viva para as minhocas

ECOA

24/11/2019 00h19

Eu não sabia que mais da metade do nosso lixo é orgânico. Pois é.

Descobri isso na palestra de um italiano, de nome Enzo Vergalito, que colaborou na implementação de uma nova coleta seletiva na Itália, que está sendo adotada também em outros países da Europa. O lance dessa coleta é que ela contempla o lixo orgânico e que é porta-a-porta (termo que ele usou), ou seja, a coleta é feita quase que diretamente da mão do cidadão que gerou o lixo para a do que vai levá-lo para o descarte correto.

Ela baseou-se numa pesquisa que mostrou que 44% do lixo gerado na Itália é orgânico. Nessa palestra, ele também contou que nos países da América Latina (aqui da nossa parte), esse número sobe para 54%. Ou seja, 54% (mais da metade) do lixo que produzimos por aqui é orgânico! E essa foi a informação que ficou comigo e me deu vontade de escrever essa coluna. Porque fiquei me perguntando depois da palestra: por que a gente fala tanto de reciclagem e tão pouco de compostagem ou de destinação correta de lixo orgânico?

Compostagem é uma espécie de reciclagem de lixo orgânico, em que cascas de frutas e verduras, por exemplo, viram adubo! Esse processo acontece com o auxílio luxuoso das nossas amigas minhocas e de processos envolvendo micro-organismos que eu não saberia explicar em detalhes.

Em casa, eu composto meu lixo orgânico. Passei um tempo com um misto de preguiça e medo de incluir esse hábito na minha vida, porque uma vez que você adquire minhocas para chamar de suas, você tem que alimentá-las direito para que elas não morram e para que seu apartamento (no meu caso) não feda nem seja infestado por moscas. E deu certo, tá? Faz mais de um ano que os bichinhos são felizes com as cascas de mamão e abóbora que colocamos lá na sua caixinha todos os dias. E as plantas daqui de casa, como as da minha mãe e da minha sogra estão uma beleza, graças ao adubo que foi gerado na caixinha. E vou dizer que esse número que ouvi na palestra fica bastante didático quando você faz essa separação na sua casa. É quase como se eu conseguisse ver o número 54 (mais da metade do meu lixo) nas caixinhas da minhoca.

Uma parte importante do processo de implementação do porta-a-porta foi o treinamento do pessoal que iria apresentá-la aos cidadãos, porque, sem adesão na etapa de separação, o processo todo que vem depois fica comprometido. As caixas não são muito grandes, e a ideia é que você fique com seu lixo em casa e entregue diretamente para o lixeiro, no dia correto da coleta ao invés de jogá-lo num lixão grandão da rua ou do seu condomínio. Nesses casos o lixo é de todos mas não é de ninguém. E a grande mudança dessa nova modalidade de coleta é que você passa a se responsabilizar individualmente pelo seu lixo (apoiado pelo poder público que faz a parte dele da porta da sua casa para a sua destinação correta). Então o pessoal treinado para explicar todo o processo também te incluía nessa meta de gerar menos lixo e de te contar que "olha quanta coisa vai pro lixão contaminar o solo, quando poderia virar adubo ou ser reciclada".

Outra coisa importante é que o lixo lá na Itália tem um imposto exclusivo, um imposto todinho para chamar de seu. E todo mundo pagava igual, até a implementação desta nova modalidade de coleta. Na verdade, no início do porta-a-porta, ainda era um imposto único, até que eles perceberam que, se eles incluíssem uma certa bonificação para quem gerasse menos lixo, isso estimularia sua redução, não só a sua separação. Então, o imposto a ser pago pelo cidadão é menor para quem gera menos lixo e, consequentemente, maior para quem gera mais.

Enfim, fora a parte chocante dos 54% menos falados por aqui, a coisa otimista dessa palestra é que, com essa coleta, a Itália é hoje o país que tem o maior percentual de reciclagem de resíduos, tanto urbanos (que são os gerados por nós, cidadãos) quanto industriais. Um caso de sucesso entre legislação, consumidores e poder público. Essa mudança foi impulsionada por regras mais severas a aterros que começaram a criar problemas de saúde pública e também porque na Europa existe uma meta estabelecida pelo Parlamento Europeu de reciclar, até 2030, 70% de resíduos urbanos e 80% dos resíduos de embalagens.

Fato é que, por lá, eles já perceberam que dentro dos "3 Rs" que o pessoal prega por aí, a primeira opção é Reduza, depois Reuse e por último Recicle, porque, não sei se você sabe, mas nem tudo que é reciclável é de fato reciclado.

Taxar o lixo muda o consumo. Se você quer pagar menos imposto, vai comprar coisas que gerem menos lixo. Você pode, por exemplo, optar por coisas que tenham menos embalagem.

Pensar sobre o lixo que geramos também muda o consumo. Porque, se você está lendo essa coluna, é porque pensa sobre isso e quer fazer mudanças no seu cotidiano que contribuam para o bem-estar coletivo. Quem sabe na próxima ida ao mercado você prefira os legumes que não estão em bandejinhas, ou bolachas embaladas em conjunto e não em (mil) embalagens individuais. Se você tem um pedacinho de terra no seu quintal, quem sabe não se anima em compostar seu lixo orgânico. Tá cheio de links na internet ensinando a fazer e te conto que não é tão difícil, tá? Aí, quem sabe, você vê o número 54 no quintal, que nem eu vejo aqui nas minhas caixinhas.

Sobre a Autora

Lia Assumpção é designer, mestre em Arquitetura e Design pela FAU-USP, curiosa dos assuntos relacionados a consumo e sustentabilidade.

Sobre o Blog

Este blog é sobre consumo consciente porque nem tudo que é reciclável é reciclado. É escrito por uma designer, inquieta com a maneira como consumimos e descartamos coisas e crédula de que só uma iniciativa compartilhada entre indústria, poder público e consumidores conscientes pode alterar a lógica consumo-descarte vigente. A ideia aqui é falar sobre atitudes cotidianas, tentando um meio a meio entre reflexões e soluções práticas.

Lia Assumpção