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A música e o chapéu

ECOA

17/11/2019 11h35

Meu marido é músico e produtor musical e uma vez ele me contou de uma reunião a que foi e que começou com a seguinte frase: "a indústria do CD hoje é uma espécie de indústria do chapéu na década de 70". Contextualizo
dizendo que essa reunião aconteceu há uns 15 anos, bem na época em que os CDs começaram a não vender mais porque começou a ter muita pirataria e compartilhamento de músicas pela internet.
O que isso tem a ver com consumo consciente? Nada. Mas tudo. Porque, na década de 50, todo mundo usava chapéu, o cara que tinha uma fábrica ou uma loja de chapéus estava bem, ganhando dinheiro, vendendo chapéu pra todo mundo, porque todo mundo usava chapéu. E aí o pessoal parou de usar chapéu e a coisa começou a não andar assim tão bem pra esse moço. E ele teve que repensar seu negócio. Como o meu marido e as pessoas que trabalham com música, que tiveram que pensar no seu negócio quando houve essa reunião e seguem pensando e acompanhando as
mudanças até hoje.
No caso do chapéu foi meio drástico porque as pessoas pararam de comprar chapéus e fim da história. Parece inclusive que o grande produtor de chapéus aqui de SP acabou produzindo camisas e papel… No caso da música, num primeiro momento, houve uma mudança somente na mídia (antes era vinil, fita cassete e depois CD), mas a maneira como consumíamos música era igual (a gente ia até a loja e comprava uma dessas opções). Na primeira
coluna deste blog, eu falei da vitrola e do CD. Me referia ao fato de as vitrolas ficarem velhas e difíceis de consertar, gerando um descarte (muito incômodo para mim) de discos de vinil por conta da chegada do CD. Porque naquele
momento, a mudança era essa: trocamos a bolacha grandona da Rita Lee, do Pink Floyd e do Lucio Dalla por aquela outra pequenininha e brilhante dos mesmos artistas e seus lançamentos.
Depois do streaming (que é o mundo maravilhoso das músicas que moram na nuvem), a maneira como consumimos música também mudou (e segue mudando). E isso acaba mudando também a maneira como ela é produzida. Porque quando tinha o vinil, o cassete ou o CD, tinha um álbum. E o artista tinha que fazer entre 9 e 12 músicas para lança-lo e era caro. Tinha ali todo um empenho no desenho das capas e encartes (artistas gráficos maravilhosos deixaram verdadeiras obras de arte pra gente nessa parte) e isso compunha um álbum.
Hoje, é possível lançar uma música só, single pra usar o termo correto (em inglês). Aí o artista faz um upload (também pra usar o termo em inglês pra dizer que ele compartilhou a música na internet) e a música tá lá, pra quem quiser ouvir. E vai da pessoa querer gravar uma, três ou dez músicas; mas a mídia mesmo, o CD, o vinil, o cassete, não precisa existir mais necessariamente. E antes você até precisava de um tocador de Mp3 (que poderia quebrar), mas agora tudo toca no seu celular. Tudo bem que a gente fica prisioneiro do telefone que toca as músicas e que quebra e a gente prefere trocar do que consertar, mas estamos prisioneiros dele por um monte de outras razões, não só a música, não?

O que é lindo disso é que você encontra o que quiser nas plataformas digitais, não tem que pedir pro moço da loja de CDs incríveis que você frequentava trazer o CD pra você de onde quer que seja. O que é novo nisso? Continuamos consumindo música, mas não tem mais produto físico, necessariamente. E isso gera um monte de questões de direito autoral, pagamento e distribuição que eu nem me meto e que também não vem ao caso aqui.

De um certo ponto de vista, essa mudança na maneira de consumir música diminui a produção de coisas físicas que um dia poderiam virar lixo e também facilita o acesso a ela porque não depende mais que CDs atravessem oceanos para encontrar seus ouvintes. Um pouco na linha do furo e a furadeira de umas colunas atrás (que privilegia o serviço e não o produto como posse), mas talvez um pouco mais complexo, porque estamos falando de arte e a parte gráfica dos CDs e vinis eram também parte da obra e, para mim pelo menos, fazem falta. Vale dizer que vinis voltaram a ser produzidos novamente, mas mais restritos a nichos específicos, numa quantidade menor, fora da lógica de consumo louca. Assim como tem gente que ainda usa chapéu, não é mesmo?
O que vem ao caso aqui é que estamos em uma fase de mudanças grandes na maneira como consumimos e produzimos coisas. Dentro dessas mudanças, uma parte importante tem (ou teria que ter) a ver com
sustentabilidade. Não depender dos aparelhos que quebram sem poderem ser consertados acaba tirando a música da lógica do compra-descarte-compra em que vivemos.
Isso tudo me faz pensar que novas maneiras de consumo que levem questões de sustentabilidade de fato a sério são pra ontem! Porque a mudança que se apresenta exige que as empresas se adequem a elas, seja porque a legislação acabará obrigando (como já acontece em muitos países da Europa) seja porque seus consumidores acabarão exigindo. E arrisco dizer que as empresas que continuarem operando na chave do crescimento eterno e contando sempre com um consumo (de posse) que deve sempre aumentar poderá ser a fábrica de chapéus ainda nos dias de hoje.

Sobre a Autora

Lia Assumpção é designer, mestre em Arquitetura e Design pela FAU-USP, curiosa dos assuntos relacionados a consumo e sustentabilidade.

Sobre o Blog

Este blog é sobre consumo consciente porque nem tudo que é reciclável é reciclado. É escrito por uma designer, inquieta com a maneira como consumimos e descartamos coisas e crédula de que só uma iniciativa compartilhada entre indústria, poder público e consumidores conscientes pode alterar a lógica consumo-descarte vigente. A ideia aqui é falar sobre atitudes cotidianas, tentando um meio a meio entre reflexões e soluções práticas.

Lia Assumpção