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365 Garrafas de Leite

Lia Assumpção

10/11/2019 04h00

Eu tenho uma amiga que se auto-intitula "mensageira do apocalipse". Ela é jornalista, cuida dos seus dois filhos e de todas as praças ao redor da casa dela, fala com estranhos e se indigna, de maneira bastante ativa, com as desigualdades, lixo e mais uma porção de coisas que estão erradas na nossa cidade.

Sempre que a gente se encontra, falamos desses problemas todos e ela, como boa jornalista, vem sempre cheia de números e realidades que, invariavelmente, me fazem pensar, na metade nosso encontro, que eu não presto pra nada, que não faço nada pra mudar isso e que, nossa, tá tudo quase perdido mesmo. Porém, também quase sempre até o fim do nosso encontro, depois de um momento de silêncio, lamentação e "nossa, tá duro",  bolamos um plano de mudar algo e tentar salvar o mundo, nem que seja um pouquinho. Muitas vezes, ela já vem com um projeto em mente, em outras, pensamos em ideias realizáveis…

Num desses nossos encontros, ela me contou da sua indignação para com o leite que assinava na época. Já fazia uns anos que assinava o leite, e que tentava, sem sucesso, retornar a embalagem de plástico para a fábrica. Porque ela pensava, já que o cara me entrega 3 garrafas toda segunda-feira, porque ele não pega de volta as três da semana passada? E aí ele recicla lá mesmo e isso fica rodando pra sempre feliz. E nesse ponto, já tinham sido muitos e-mails telefonemas dando essa sugestão/dica/presta atenção, mas nenhuma resposta. Até que ela se encheu, colocou as 365 garrafas que ela e uma outra amiga indignada tinham juntado em um mês de consumo, e foi até a fábrica pra devolver o que era deles. Tudo ficou registrado num filme feito por uma amiga fotógrafa, também inconformada, e por um jornalista que acabou fazendo uma matéria sobre a ação. E no que deu? Em nada. Na reportagem, o moço da fábrica é muito gentil, diz que estão pensando mesmo nisso e algo como "nossa, é super importante esse retorno para nós"…

E como nada mudou na logística da sua assinatura, ela passou para a etapa seguinte de descobrir se, pela associação das embalagens, daria pra tentar algo. Aí juntamos umas tantas pessoas indignadas que juntaram por uns quase dois meses todas as embalagens de leite consumidas, pra fazer um volume maior. E ela combinou com um catador uma ação pra levar as garrafas até o escritório da Sindileite, que reúne as indústrias de embalagens de leite e derivados. Dessa vez, eram 1.300 embalagens de leite e derivados.

E lá fomos nós, andando pelo centro, com as embalagens, com os catadores, contando pras pessoas o que a gente tava fazendo. Enchemos um carrinho e um elevador inteiro de embalagens, conversamos lá com o povo do Sindileite. Quero pensar que alguém nesse caminho ou no Sindileite ficou pensando no que a gente tava falando, mas assim, de prático mesmo, tudo continua bem igualzinho.

Nosso encontro, entre as duas "devoluções" de garrafas, tinha o objetivo de descobrir um pouco sobre os materiais que estávamos "queixando" e sua possível e efetiva de reciclabilidade. E foi horrível descobrir que boa parte dos materiais que a gente encontra na gôndola do mercado, que tem autorização para ser produzida e comercializada, não é reciclável. Porque quando tem dois materiais diferentes fundidos, é quase impossível reciclar (coloquei o quase, só pra não virar mensageira do apocalipse também). Uma parte do que descobrimos está nesse esquema a seguir:

Fonte: Carolina Tarrio e Lia Assumpção

Sabe uma embalagem de iogurte (linda!) azul marinho por fora e branca por dentro? Pois é, ela não pode ser reciclada. E sabe umas garrafas de leite longa vida brancas, também lindas? Pois é, elas também não podem ser recicladas, porque elas usam dois materiais fundidos um no outro. O que tudo isso deu no fim? Em nada de mudança efetiva. Mas deu em informação que traz um consumo mais consciente. Tem uma parte de mim que torce para que ninguém mais compre essa embalagem e a empresa seja obrigada a escolher outro material; tem uma outra que fica indignada com a Sindileite que permite a produção e comercialização desse material e que eles é que estão errados. Tem ainda uma terceira que odeia a empresa que opta por esse tipo de material e que, com isso, se exime da sua responsabilidade social e ambiental. Porque nesse caso, nem a empresa, nem a legislação/poder público estão fazendo a sua parte. Então a gente faz a nossa, não comprando essas embalagens.

Eu confesso, às vezes compro um iogurte com essa embalagem, porque gosto do seu sabor. Mas acabo comprando um só, dois. E tento fazer a embalagem virar algo depois (já virou vaso, já virou porta coisas) porque lembro de tudo isso que acabei de contar. Mas no fim, ela vira lixo sim; demora um pouco mais, mas vira lixo, é verdade. Talvez, na próxima vez que você for ao mercado, você lembre dessas palavrinhas e isso pese na sua escolha. Ou não. Acredito que a gente saber essas coisas para escolher, é melhor do que nada, ainda que ache que a mudança mesmo só venha quando isso bater lá nos lucros da empresa ou na saúde e que faça com que a legislação não permita mais a comercialização de produtos não recicláveis.

Sobre a Autora

Lia Assumpção é designer, mestre em Arquitetura e Design pela FAU-USP, curiosa dos assuntos relacionados a consumo e sustentabilidade.

Sobre o Blog

Este blog é sobre consumo consciente porque nem tudo que é reciclável é reciclado. É escrito por uma designer, inquieta com a maneira como consumimos e descartamos coisas e crédula de que só uma iniciativa compartilhada entre indústria, poder público e consumidores conscientes pode alterar a lógica consumo-descarte vigente. A ideia aqui é falar sobre atitudes cotidianas, tentando um meio a meio entre reflexões e soluções práticas.

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