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Lia Assumpção

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O homem que não queria causar impacto

ECOA

03/11/2019 04h00

Um tempo atrás, assisti a um filme que se chamava "No impact man", que, numa tradução meio Google, poderia ser "o homem sem impacto", mas que traduzi no título da coluna como "o homem que não queria causar impacto", porque é isso na verdade que esse homem queria. É um documentário americano, de 2009, de um escritor que mora em Nova York com a mulher e uma filha pequena e faz um plano de um ano para reduzir (ou tentar zerar mesmo) seu impacto no mundo.

Lembrei desse filme porque semana passada li nas redes sociais o depoimento de alguém que fez algo parecido por aqui, inspirado numa reportagem de revista. Imaginei que, em diferentes graus, talvez tenha bastante gente fazendo isso por aí hoje. Mas na época do documentário, isso ainda era novo.

A coisa legal do filme é que Colin Beavel, o escritor que se propõe a fazer o experimento, chega num extremo de restrições (ainda que ele não goste muito de usar essa palavra) para entender o que é necessário e o que é excesso em sua vida. Diversas vezes no filme, ele pergunta "precisamos mesmo ser a cultura do descartável?".

São três fases para a sua redução/anulação de impacto no mundo:

  1. redução do lixo (sem descartáveis e compostagem);
  2. comer local (nada pode vir de mais de 400 km de distância);
  3. consumo sustentável (que basicamente não pode comprar nada descartável nem novo, e, claro, somente o necessário).

Junto com as fases, tem todo um cálculo de redução de carbono, então eles não viajam de avião nem de nenhum outro transporte que emita gás carbônico, ou seja, eles andam a pé, de bicicleta ou patinete. Ah, e sem elevadores e ar-condicionado também!

Então, na primeira e na segunda fase, das embalagens e do comer local, tudo bem, eles encontram mercados próximos que vendem a granel e uma parte dos problemas é fácil de resolver. Algumas mudanças de hábito se impõem, graças à impossibilidade de encontrar alimentos que se enquadrem nos critérios estabelecidos, mas sem grandes crises.

Lá pelo sexto mês, tem a parte da energia elétrica e dos produtos de limpeza. Eles desligam a chave geral do apartamento e vivem com a energia gerada pela placa de energia solar que instalam no teto do edifício onde moram, que serve quase que somente para carregar o computador, que registra o experimento… Nessa etapa também a geladeira vai embora, assim como a televisão. Apesar dos esforços, e de todas as traquitanas de barro que podem fazer as vezes da geladeira, a engenhoca que eles tentam construir para isso não funciona. Já a parte dos produtos de limpeza aparentemente dá certo quando eles substituem produtos químicos por receitas caseiras naturais e, em dado momento, até se divertem lavando roupas na banheira…

Duas coisas me chamaram atenção nesse filme: a primeira é a vida que eles acabam levando durante um ano em Nova York, o que é contrastante nesse contexto de consumo extremo. Em diversos momentos do filme, esse contraste aparece, seja quando a imagem é do apartamento com luz de velas no meio de todas as janelas iluminadas, seja ela subindo de elevador de um desses prédios corporativos gigantes para trabalhar na redação de uma revista.

A segunda coisa que me chama atenção é o depoimento final da mulher do homem que não queria causar impacto. A sensação que dá é que a vida que mais mudou foi a dela e que foi difícil por um lado, mas transformador por outro. Ela conta que sofreu muito com a ida da televisão, mas que sua surpresa ao constatar que outras coisas podiam acontecer sem ela foi maior do que seu sofrimento. Reuniões mais frequentes com amigos e um convivência mais intensa com a filha fizeram com que, no final do experimento, ela não quisesse que a televisão voltasse para casa. O café foi traumático mesmo; ela não diz, mas dá pra entender que talvez a quantidade tenha diminuído depois do experimento, ela talvez leve seu próprio copo para comprá-lo, mas a alegria de voltar a tomar café no final do experimento faz seus olhos brilharem.

A fala de Colin, em diversos momentos do documentário, é de que as pessoas não precisavam fazer como ele, mas que sua presença e a do seu experimento servem como um disparador de atenção para diversos assuntos como a cultura do descartável, o desperdício e a maneira como consumimos as coisas.

Quando vejo coisas assim, ou convivo com pessoas que não pegam aviões por causa da emissão de gás carbônico, por exemplo, fico divida. Por um lado, acho que tem uma mensagem importante aí, que vai se expandindo e contaminando outras pessoas e meu lado otimista pensa que é o começo de tudo mudar; fico eu também não querendo pegar mais aviões. Por outro, me revolta uma porção de pessoas mudando suas vidas por conta do meio ambiente e as companhias aéreas (e a indústria de maneira geral) não investirem pesado em novas tecnologias com menor impacto. Porque é diferente uma pessoa deixar de pegar o avião, e todo avião funcionar pensando em não causar impacto… Sei que vai ter gente que vai dizer que já existem essas pesquisas, mas a mudança expressiva ainda não veio, certo?

Ainda funcionamos muito na lógica do comprar – descartar – substituir em muitos setores… Também acho que esse filme me faz pensar que, às vezes, mudar hábitos parece maior do que de fato é. Quando nos propomos a abrir mão de algo, pode ser que encontremos algo melhor ali do lado. Isso vale para todos os personagens do consumo, os que compram e os que vendem. Precisamos
mesmo ser a cultura do descartável?

Sobre a Autora

Lia Assumpção é designer, mestre em Arquitetura e Design pela FAU-USP, curiosa dos assuntos relacionados a consumo e sustentabilidade.

Sobre o Blog

Este blog é sobre consumo consciente porque nem tudo que é reciclável é reciclado. É escrito por uma designer, inquieta com a maneira como consumimos e descartamos coisas e crédula de que só uma iniciativa compartilhada entre indústria, poder público e consumidores conscientes pode alterar a lógica consumo-descarte vigente. A ideia aqui é falar sobre atitudes cotidianas, tentando um meio a meio entre reflexões e soluções práticas.

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